A trova, dizes, não tem vôo, é pobre,
não conta nos brasões da Academia.
Que poeta se imortalizaria
compondo a trova, inda que o brilho sobre?
O poeta há de crescer no verso nobre,
subir aos céus sem fim da fantasia.
Jamais ficar restrito à linha, à estria
do compasso que mede o sino em dobre
.
Nunca se alcançará sem vôo alto,
sem a subida ao cume do Himalaia
- sair do terra-a-terra, chão e asfalto.
Sem vôo, dizes por fim vãs pabulagens -,
mesmo a beleza da mais rica alfaia
não marca a glória das reais paisagens."
II. LUZES DA TROVA
Não marca a glória das reais paisagens,
mas, como o pirilampo fosforeia
a trova, tem as luzes, sons e imagens
com que se canta o amor e a dor pranteia.
Se queres, meu amigo, as vãs roupagens
do brilho fátuo que se acende e alteia
no esforço das marcadas tatuagens,
hás de ir ao fogo que o vulcão boleia.
Uma trova é um extrato ou fingimento,
de vez que o trovador finge no invento
das lágrimas choradas de verdade.
Fingido é o trovador e finge tanto
que chega a ser piegas no seu pranto,
não cobre o chão de luzes e vaidade.
III. A TROVA E OS SÁBIOS
Não cobre o chão de luzes e vaidade,
porém acolhe, a trova, os homens sábios.
Os que estudam com fé os alfarrábios
são simples, sem fugir à realidade.
O néscio é que não lê nos astrolábios
e não busca ou investiga a qualidade.
Tolo, não grava na simplicidade,
a grandeza da luz sem ter ressábios.
O trovador é simples, mas proclama,
trabalha o eterno, acende a eterna chama
que imortaliza sem trivialidade.
Não se põe como o néscio ensimesmado,
porém rendilha a trova, é estimulado
no seu vestido de simplicidade.
IV. O TROVADOR, IRMÃO DE SÃO FRANCISCO
No seu vestido de simplicidade,
o trovador tem o que quer, e basta!
Se não exibe o luxo, não se afasta
do pouco que lhe dá felicidade.
No luxo cria-se a rivalidade
em que o ódio se anima e se repasta.
Ao trovador, todo o rancor agasta,
agasta e humilha a frívola vaidade...
O trovador, irmão de São Francisco,
prefere as luzes fracas ao corisco,
quer a simplicidade das imagens.
Na glória de ser simples, desfigura,
nega os que buscam a literatura
na vastidão desértica as miragens!
V. A ARCA DA ALIANÇA
Na vastidão desértica, as miragens
oferecem oásis de ilusão!
Buscamo-los, e adeus! Figuração
de verdores irreais, e não paisagens...
A glória é assim! Pousadas e estalagens
ilusórias a põem em nossa mão.
Cedo, porém, sentimos a visão
esvair-se em fumaças e visagens...
Sendo a glória fugaz, vai-se tão breve
que mal a percebemos, a água ferve
e se evapora sem maior delonga...
Porque é real e humilde, em sua andança
prefere a trova a Arca da Aliança,
não anda largos mares, não perlonga...
VI. O CORAÇÃO DA POÉTICA
Não anda largos mares, não perlonga
o coração humano em seus caminhos,
as curvas e os esconsos remoinhos,
mas, só persegue o amor e o amor alonga.
O coração não cria nem ditonga
a fúria elementar, os torvelinhos.
Busca a simplicidade, os alvos linhos,
a mansa paz que a vida nos prolonga.
Procura, busca o coração humano,
no seu lento pulsar de amor e engano,
a toada, o fado, a valsa, o tango, a conga...
Compare agora a trova, é o coração
da poética. Por que, nessa razão,
não chega nunca a trova à idade longa?
VII. A TROVA AUGUSTA
Não chega nunca, a trova, à idade longa
É uma proclamação dita ao acaso.
O trovador não reconhece o prazo,
nem muda a trova na real milonga.
Nos campos do sertão grita a araponga
chamando o companheiro à hora do ocaso.
O trovador soluça em campo raso,
descanta a sua trova, a alma pionga.
Soluça, grita, ou estribilha o canto
do seu pesar, e o seu tormento é tanto,
que a trova curte a dor e em dor se veste.
E sendo o seu remédio a trova augusta,
ao trabalhá-la com amor, lhe assusta
a luxúria poética inconsteste.
VIII. A HERÁLDICA DO VERSO
A luxúria poética inconteste
vem marcada em não mais que uma quadrinha.
Crescendo em espiral de Leste a Oeste,
de Norte a Sul se aclara e apergaminha.
E vai, e encurva, e enroda, e ouro, se alinha
para a jóia raríssima que ateste
em seu soberbo colo de rainha
a cantiga da paz que a paz apreste.
Na heráldica do verso um simples risco
põe o ritmo na trova e acende a rima
com luz de sol, sem fogo de corisco.
Ao rebuscar sua matéria prima,
o trovador limpa-a de sujo e cisco,
não usa o fogo que a matéria anima.
IX. A PUREZA DA TROVA
Não usa o fogo que a matéria anima,
nunca a expressão erótica ou o obsceno.
Não tem nas suas glândulas a enzima
do frívolo, do fútil, do pequeno.
A trova é pura, é manda, é como a esgrima
de duas rosas rubras no sereno,
com um sopro de amor, como a supima
consagração do Cristo Nazareno...
Não comporta a maldade ou a escravidão,
o tétrico e o cruel, somente encima
a aura de luz que marca a boa ação.
A trova não condiz com a grossa lima
que rói a alma da gente, o coração
na embriaguez voluptuosa da vindima.
X. DEUS E O TROVADOR
Na embriaguez voluptuosa da vindima
nasce o fogo terrível das paixões,
forjam-se os crimes e as mais vis ações
- o mal conjuge o mal e se aproxima.
Quem sabe que Deus ri nas orações
mais simples e é no simples que se arrima
para a glória maior, que a vida anima,
aprende do mais simples as lições.
Assim, o trovador, quando compõe
em síntese seu quadro, aí dispõe
em tons de amor, a mágoa que lhe reste.
Vêm Deus e o trovador, vêm de parelha
dizer que em fogo fátuo, sem centelha,
a trova, muito simples, não se veste.
XI. A SIMPLICIDADE DA TROVA
A trova, muito simples, não se veste
do extraordinário, do excessivo luxo.
Tem luz de lua cheia no debuxo,
tem sol de amor ainda que o frio creste.
O trovador dispõe do mundo e investe
o mel no sofrimento, abre em repuxo
a cadeia de luzes, como um bruxo
faz alegre a tristeza do cipreste.
Se tão simples vem tudo em seu trabalho,
é que a bigorna, o ferro e o próprio malho
respingam dor e amor em solo agreste.
Ainda agora, criava uma quadrinha
e ao concluí-la, etérea, alva, mansinha,
- tinha o fulgor do sol no azul celeste.
XII. A QUADRINHA DE AMOR
Tinha o fulgor do sol no azul celeste,
o albor do amanhecer em solo raso
- a quadrinha de amor em que puseste
os raios do arrebol à hora do ocaso.
A trova vale ouro, e bem quiseste
o contraste de negro e luz sem prazo
para a contemplação que se reveste
de fantasia e sonho por acaso.
Era o espertar da luz nascendo o dia,
que se mudou no ocaso pela esgrima
da ilusão que idealiza a ave maria.
O trovador é assim, tem arte e estima
para criar do nada a fantasia
à vista da quadrinha, cuja rima...
XIII. O SONETO EM LOUVOR À TROVA
À vista da quadrinha, cuja rima
vinha engastada de brilhantes raros
produziste de um jato e sem reparos
a fina jóia, alvíssima, supima.
Que te direi, quando o soneto encima
luzes e cores, quedas, desamparos
de mortas estruturas, dinossauros
ou crostas milenares, força de ímã?
É a hora em que se impõe a reflexão
e hei de pensar no que dizer-te em vão,
se a palavra é mesquinha e não se anima.
Quis um soneto de louvor à trova
e o fiz tão simples como a lua nova,
quando falei em termos de obra prima.
XIV. LOUVOR AOS MESTRES
Quando falei em termos de obra prima
à vista de uma trova, a mais singela,
não faltou quem pintasse uma aquarela
em nuanças que ambas aproxima.
Houve mais quem erguesse a alta estela
para a inscrição da trova, ritmo e rima,
a comprovar que a arte mais se anima
quando andam em compasso essa e aquela.
Zelio, Bastos Tigre e Adelmar Tavares,
Rodolfo e Luiz Otávio são altares
da trova simples que de luz se veste.
E agora hás de curvar-te ao próprio erro,
de quando à trova desejaste o enterro:
"Trova, literatura? Ora!" opuseste.
SÍNTESE
"Trova, literatura? Ora!" opuseste
quando falei em termos de obra prima
à vista da quadrinha, cuja rima
tinha o fulgor do sol no azul celeste.
"A trova, muito simples, não se veste
na embriaguez voluptuosa da vindima,
não usa o fogo que a matéria anima,
a luxúria poética inconteste.
Não chega nunca, a trova, à idade longa,
não anda largos mares, não perlonga
na vastidão desértica, as miragens.
No seu vestido de simplicidade,
não cobre o chão de luzes e vaidade,
não marca a glória das reais paisagens.