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DONA EDNA

Salvador, 1992.

Edna era uma daquelas professoras religiosamente apaixonadas pela profissão, de uma paixão nervosa que a fazia fornecer a resposta certa de uma questão quando eu lhe perguntava se a resposta errada - que eu presumia certa - fazia sentido. "É claro que não é assim!", ela respondia, exibindo o jeito autoritário de detentora - como só ela só podia clamar - das entrelinhas da língua portuguesa e entregando a alternativa a ser assinalada. Era uma gramática ambulante e ao mesmo tempo uma senhora baixinha e simpática. Daí o chamativo "Dona".

Devo a ela o apego que mantenho aos versos. Não falo da poesia em si, pois aos oito anos eu já compunha rimas. Digo do culto à ordenação das palavras com o intuito de produzir som, despertado cada vez que Dona Edna cantava poemas aos alunos, com os olhos úmidos a fazer ecoar emoções. Cabia-lhe desse modo disfarçar de deuses os autores dos textos lidos aos quais não aceitava crítica qualquer.

Pobre Mariana, colega e namorada do professor de Física. Certo dia, descontente com uma obra (não lembro o nome) cuja leitura fora sugerida a fim de entendermos a terceira fase do romantismo, ela perguntou à professora o porquê de lermos livros daquela época já que nos tempos modernos não tinham nada a acrescentar. Só isso. O suficiente para evocar na Dona um discurso patriótico desses que fariam Machado levantar do túmulo e aplaudir, de tal modo articuladas as frases que parecia ter combinado com a aluna a pergunta.

Com a mesma perfeição com que proferia seus ensinamentos, Edna escrevia. Sua letra era caprichada e ocupava todos os espaços possíveis do quadro-negro, num esforço de produtividade, pois sua baixa estatura a impedia de preencher ali os cantos mais altos. Ela copiava o conteúdo do caderno que carregava feito Bíblia, sob o braço, também organizado este pela grafia exemplar. Havia certamente decorado suas linhas porque, embora as reproduzisse, consultava-as umas poucas vezes enquanto riscava a lousa.

Corrigia o português falado errado sem parecer arrogante. Não aceitava abreviações por exemplo "tava", ao invés de "estava", comum na Bahia. Ela era uma lutadora em defesa da língua que fui abençoado de encontrar no meio do caminho que me levou à poesia, a quem venho agradecer através de um soneto:

O marcador

Cada um tem na história o seu valor:
O arquiteto, o doutor, o balconista.
Segue ocupando o topo desta lista,
Com seu traço de artista, o professor.

Profissão exemplar em seu labor
De lecionar a todos a conquista
Do saber, dando sem querer a pista
Do destino de cada... O marcador.

Cabe ao mestre o sucesso do aprendiz
Ao fazer com que verse sobre um tema
E lute por aquilo que alcançou

Aprendendo, além disso, a ser feliz.
Se entrementes escrevo este poema
É que as rimas alguém que me ensinou...

Recordo-me de uma série de peças teatrais ao final do curso que Edna propôs como prova, numa das quais atuei como o submisso Seixas do romance Senhora, de José de Alencar. Nas avaliações após cada apresentação, revelava-se outro dom na professora ao lhe ouvir conceituar os gestos, as falas, as expressões de cada um. Ela chegou a perceber numa aluna a vocação para jornalista, em outro a veia artística. Não havia conhecido ainda este seu lado mãe, todavia nada mais naquela pessoa me surpreendia.

Acabou o ano, mudei de Salvador e em uma década nunca mais a vi. Não sei onde ela está vivendo e se continua dando aula (espero), de qualquer forma dedico-lhe este rascunho.

Perdoa-me, professora, pelos erros de português.

Bernardo Trancoso

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