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A HISTÓRIA DO SONETO
Sonetos no mundo
Ao que tudo indica, o soneto - do italiano sonetto, pequena canção ou, literalmente, pequeno som -
foi criado no começo do século XIII, na Sicília, onde era cantado na corte de Frederico II da mesma
forma que as tradicionais baladas provençais. Alguns atribuem a Jacopo (Giacomo) Notaro, um poeta
siciliano e imperial de Frederico, a invenção do soneto, que surgiu como uma espécie de canção ou
de letra escrita para música, possuindo uma oitava e dois tercetos, com melodias diferentes.
O número de linhas e a disposição das rimas permaneceu variável até que um poeta de Santa Firmina,
Guittone D'Arezzo, tornou-se o primeiro a adotar e aderir definitivamente àquilo que seria reconhecido
como a melhor forma de expressão de uma emoção isolada, pensamento ou idéia: o soneto. Durante o
século XIII, Fra Guittone, como era conhecido, criou o soneto guitoniano, padronizado, cujo estilo
foi empregado por Petrarca e Dante Aligheri, com pequenas variações. Tais sonetos são obras marcantes,
se considerarmos as circunstâncias em que eles surgiram.
Coube ao fiorentino Francesco Petrarca aperfeiçoar a estrutura poética iniciada na Sicília,
difundindo-a por toda a Europa em suas viagens. Sua obra engloba 317 sonetos
contidos no "Il Canzoniere", a coletânea de poesia que exerceu
inflência sobre toda a literatura ocidental. As melhores poesias desse livro são dedicadas a
Laura de Novaes, por quem possuía um amor platônico. Destacam-se os recursos metafóricos e o
lirismo erótico dos sonetos.
Dante Alighieri, o autor da consagrada "A Divina Comédia", e também um seguidor de Guittone,
em sua infância já compunha sonetos amorosos. Seu amor impossível por Beatriz (provavelmente
Beatrice Portinari) foi imortalizado em vários sonetos em "Vita Nuova",
seu primeiro trabalho literário de grande importância.
Anos se passaram até que dois ícones da literatura mundial, um inglês e um português, deram ao
soneto, cada um ao seu modo, o toque de mestre: William Shakespeare e Luis de Camões.
Camões freqüentou a nobreza em Portugal, mas foi exilado por suas posições políticas. Passou alguns
anos na prisão, de onde saiu com "Os lusíadas", uma obra que o colocou entre os maiores poetas de
todos os tempos. Apesar disso, morreu pobre. Escreveu diversos sonetos, tendo o amor como tema
principal.
Shakespeare, além de teatrólogo, desenvolveu uma habilidade única na poesia. O seu soneto, o soneto
inglês, é composto por três quartetos e um dístico, diferente da composição original de Petrarca.
O mais célebre dos escritores ingleses escreveu diversos poemas, alguns deles recheados de
metáforas. Curiosamente, sua obra Romeu e Julieta destaca um soneto,
bem no início do diálogo entre os seus protagonistas...
Desde então, o soneto adquiriu importância ao redor do mundo, tornando-se a melhor representação
da poesia lírica. Alguns casos são notáveis: o poeta russo Aleksandr Pushkin
compôs Eugene Onegin, um poema repleto de sonetos adotado por
Tchaikovsky para compor uma de suas óperas; o francês Charles Baudelaire ajudou a divulgar os
versos alexandrinos em Les Fleurs du Mal.
Até Vivaldi usou-se de sonetos.
E por falar em versos alexandrinos, utilizados por muitos sonetistas, eles remontam - segundo
alguns dicionários da língua portuguesa - a uma obra francesa do século XII chamada Le Roman
d'Alexandre, e significam versos de DOZE sílabas poéticas. Porém, os dicionários da língua espanhola -
apesar de apontarem para a mesma origem - insistem em afirmar que os versos alexandrinos são aqueles
que contêm CATORZE sílabas gramaticais. Dê uma olhada nos versos que
influenciaram decisivamente a poesia na Alta Idade Média e que eternizaram o nome de seu autor e de
sua obra, e decida qual a melhor definição...
Finalmente, após aderir ao humanismo e ao estilo barroco, o poema dos catorze versos acabou sendo desprezado
pelos iluministas. No século XIX, ele voltou a ser cultivado, com mais fervor, por românticos,
parnasianos e simbolistas, sobrevivendo ao verso livre do modernismo - que viria em seguida -
até os dias atuais.
Sonetos no Brasil
Gregório de Mattos foi um dos primeiros sonetistas em terras brasileiras. Nascido na Bahia,
revoltou-se contra o governo e a Igreja e passou a escrever obras satíricas, algumas de caráter
pornográfico. Era conhecido como "Boca do Inferno" por seus versos e chegou a ser denunciado à
Inquisição. Sua obra "Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado" é uma das que mais aparecem
nas provas de vestibular.
Quando o arcadismo apareceu no Brasil, quase ao mesmo tempo que em Portugal, um de seus
representantes foi o mineiro Cláudio Manuel da Costa, que em Vila Rica (Ouro Preto) juntou-se
a Tomás Antônio Gonzaga. Gonzaga foi outro sonetista de grande importância e autor da obra que
o tornou o mais famoso dos árcades brasileiros: "Marília de Dirceu". Ambos foram presos acusados
de terem participado da Conjuração Mineira.
O romantismo em seguida viria a conhecer diversos imortais da poesia. Compuseram sonetos Gonçalves
Dias, Álvares de Azevedo, Fagundes Varela, Augusto dos Anjos, Castro Alves entre outros. Suas
obras ilustram as três fases da era romântica, período cuja importância literária promoveu
uma verdadeira revolução na cultura brasileira.
Olavo Bilac introduziu o parnasianismo em seus sonetos grandiosos pela devoção ao culto da palavra
e ao estudo da língua portuguesa. É o autor do "Hino à Bandeira". Juntos a ele escreveram sonetos
Cruz e Souza e Alphonsus de Guimaraes, esse último representante do simbolismo e um dos autores
que apresentaram maior misticismo em nossa literatura.
Do pré-modernismo e do modernismo, estilo que perdura até hoje, surgiram escritores célebres.
Alguns exemplos de sonetistas são Machado de Assis (com sua maravilhosa
obra "A Carolina"), Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade,
Manuel Bandeira e Vinícius de Moraes. Vale a pena conferir alguns sonetos de todos eles nessas
páginas...
Os sonetos atravessaram a história, vencendo prisões e guerras, cantando o amor e a arte.
Tornaram-se o vício de uma geração. Rimando ou não, tocaram (e tocam) corações por todas as
culturas e países, principalmente o Brasil. Ao mesmo tempo curtos e elaborados, eles são sem
dúvida a expressão maior da dedicação de escrever versos. Tal dedicação cantou Olavo Bilac em sua
obra "Profissão de fé":
"Invejo o ourives quando escrevo:
Imito o amor
Com que êle, em ouro, o alto-relêvo
Faz de uma flor..."
Foi criada uma lápide para a campa de Camões com os dizeres: "Aqui jaz Luís de Camões, Príncipe dos
Poetas de seu tempo. Viveu pobre e miseravelmente, e assim morreu".
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Fernando Pessoa detestava ser fotografado, por isso, afastava-se da objectiva fotográfica,
afastava-se dos cães e de lugares desconhecidos.
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Tomás Antônio Gonzaga escrevia seus versos de Marília de Dirceu na parede com o carvão da
candeia. Depois, os transportava para o papel.
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Eis as últimas palavras de Olavo Bilac, antes de morrer: "Já está amanhecendo... dêem-me café,
papel e pena... eu vou escrever...".