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"Aonde quer que eu vá, eu descubro que um poeta esteve lá antes de mim".
S. Freud
O ÍNDIO E O RIO

Era uma vez uma tribo do sul da África chamada Diav, que uma vez por ano promovia um sigular ritual. Ele representava a transição da adolescência para a idade adulta e, no mês das chuvas, cada jovem da aldeia – para provar sua maturidade – tinha de atravessar o rio Astetriz, cuja correnteza era forte naquela época, carregando uma enorme pedra amarrada às costas. Do outro lado, o índio seria recebido por sua nova mulher, escolhida pelo chefe, com quem se casaria e teria filhos.

Mas havia em Diav um índio quieto e franzino que não pretendia atravessar Astetriz. Barrondé o seu nome, tinha medo de que, sendo magro, seria facilmente arrastado pela correnteza e certamente acabaria morrendo. "Sou fraco", ele costumava dizer. E, mesmo a contragosto dos pais, se negava a participar daquele ritual. Portanto foi chamado de covarde pelos outros jovens índios. Perdeu amigos. Barrondé então caiu em febre e logo começou a preocupar o chefe da tribo.

Este, que freqüentemente atravessava o rio de canoa para conversar com os jovens e contar-lhes as maravilhas da vida adulta (Caldi Fiede, na língua da tribo), não tardou em procurar Barrondé para lhe propor um acordo: se o índio chegasse ao outro lado do rio, teria esperando por ele a mais bonita das moças da aldeia. Palavra do chefe. "Chegar ao outro lado", pensou por vários minutos Barrondé. E veio a sua resposta: "Está certo!" E assim jovem e velho se abraçaram à espera do dia do ritual.

Barrondé não gostava de nadar, mas seu corpo fino e esguio permitia-lhe correr como um alce. Enquanto os outros índios treinavam nadando ou carregando pedras durante várias horas nos dias anteriores ao ritual, Barrondé corria feliz pelos bosques ao redor da aldeia. Conhecia muitos lugares. Ao norte, na direção contrária à correnteza do rio, situava-se a majestosa e densa floresta Zimadéa em cujo centro se erguia o elevado monte Moar. Ao sul, Astetriz unia-se a outros rios, que juntos despejavam suas águas no oceano. A oeste, havia um terreno acidentado com poucas árvores e alguns lagos. A leste, Astetriz e, além do rio, um terreno que o índio só pudera conhecer quando criança e já não se lembrava direito.

A religião da tribo baseava-se na vida adulta (Caldi Fiede), que era associada ao auge do saber. Não tinham um Deus específico. Era como se Ele estivesse presente em todas as coisas bonitas no lugar, um pouco em cada árvore, animal, rio e inclusive nos próprios índios. O chefe era o mais sábio, escolhido sempre pelo chefe anterior. Por ser sábio, ele não precisava mandar em ninguém. O objetivo da tribo era manter a harmonia e tranqüilidade que garantisse a todos sua eterna Caldi Fiede. Para os índios, a morte não era o fim, mas uma continuação da vida adulta.

Chegou enfim o esperado dia. Logo pela manhã, posicionados à beira do rio, os jovens índios aguardavam o sinal de partida. Barrondé também estava lá, com sua pedra amarrada às costas. Eis que aconteceu algo inseperado. No momento em que o chefe de sua canoa anunciou a largada, enquanto os índios entravam calmamente no rio – pois não era uma prova de velocidade, mas de resistência – Barrondé começou a correr em direção a Zimadéa. Os outros índios, ao perceberem a fuga, gritaram "covarde, fraco". Porém o chefe da aldeia, reconhecendo então o plano do rapaz, mandou que se calassem e o ritual continuou sem Barrondé. Ou quase.

Encurtando a história, eis que Barrondé chegou ao outro lado poucas horas depois dos nadadores. Já o esperavam o chefe da tribo e a moça prometida ao índio, realmente muito bela. O jovem dirigiu-se então ao velho sábio e humildemente contou-he o que aprendera:

"Procurei por Zimadéa e Moar. Lá, encontrei o caminho certo para minha Caldi Fiede. Não precisei atravessar Astetriz, pois fui até a sua nascente. E sabe o que descobri? Que sem Moar, não há razão para existir Astetriz, mas também sem ele não haveria Diav. Do topo do Moar, pude ver todos os lugares belos da região e concluí que Deus também está no Moar. Quando deixei a floresta, percebi que Zimadéa e Moar não poderiam viver separados..."

"Como eu havia dito, tens agora a mais bela Diav... Mas, onde está sua pedra?", perguntou o chefe, vendo as costas nuas do índio. Já previa a resposta. Esboçou um sorriso.

"Quem encontra Zimadéa", disse Barrondé, "não precisa carregar pedra alguma."

Neste momento, alguns índios se aproximaram, aturdidos. Alguns haviam xingado Barrondé e um ou dois adiantaram-se para pedir desculpas. Mas o chefe os deteve dizendo:

"Este jovem, agora homem adulto, provou ser o mais corajoso e o mais sábio, pois realmente – ao contrário de todos vocês que seguiram o ritual – soube como encontrar sua própria Caldi Fiede. E o que aprendeu em poucas horas vocês levarão talvez a vida inteira para descobrir."

Anos mais tarde um historiador, ao traduzir as palavras do jovem índio para o seu idioma, deteve-se no significado de algumas delas, e o texto que produziu ficou assim:

"Procurei por AMIZADE e AMOR. Lá, encontrei o caminho certo para minha FELICIDADE. Não precisei atravessar TRISTEZA, pois fui até a sua nascente. E sabe o que descobri? Que sem AMOR, não há razão para existir TRISTEZA, mas sem ele também não haveria VIDA. Do topo do AMOR, pude ver todos os lugares belos da região e concluí que Deus também está no AMOR. Quando deixei a floresta, percebi que AMIZADE e AMOR não poderiam viver separados..."

E diz a mesma história que Barrondé um dia se tornou chefe da aldeia Diav...

(Encontre o índio que existe dentro de você... e descubra quem é Barrondé...)

Campinas, 01/09/1996
Bernardo Trancoso

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Última atualização: 22/12/2007 - © 2002-2008 Bernardo Trancoso. Todos os direitos reservados.