"Aonde quer que eu vá, eu descubro que um poeta esteve lá antes de mim". S. Freud
O CAMINHO PARA O SONETO
(In. Livro de sonetos, Rio de Janeiro: Sabiá, 1967, p. 5 - 17).
"Un rêveur est toujours mauvais poète."
Jean Cocteau
Vinicius de Moraes estreou em 1933, aos vinte anos, com O caminho para a distância – um livro, a
começar pelo título, embriagado pela vertigem das grandes abstrações e das grandes alturas. Com
invocações ao Espírito e à Verdade – tudo com maiúsculas –, o poeta reivindica um lugar privilegiado,
como ser assinalado e meio esotérico, compassivo para com os homens, mas certamente ainda de todos os
homens:
A vida do poeta tem um ritmo diferente.
(...)
E a sua alma é uma parcela do infinito distante.
(...)
Já n’O caminho para a distância, seu livro de estréia, Vinicius divulga seus primeiros sonetos. O
primeiro deles, pela ordem de paginação, "Revolta", é, claramente, um auto convite para abandonar o
pranto, a solidão, o espaço e, deixando de ser água das alturas infinitas, vir habitar o mundo:
O mundo é bom. O espaço é muito triste...
É uma antecipação premonitória do itinerário que aqui procuramos rastrear. Já o segundo soneto d’O
caminho chora copiosamente: o poeta é incompreendido, um perdido, um desesperado que se esforça em
demonstrar-se que é impraticável conciliar a alegria de viver com a nobre missão de poeta. Dois versos
logo no primeiro quarteto definem uma pretensa filosofia de cunho romântico, tão século XIX:
– A vida é um sonho vão que a vida leva
Cheio de dores tristemente mansas.
A mesma temática reaparece no terceiro e último soneto d’O caminho – "Judeu-errante", que nada tem ainda
da marca pessoal de Vinicius. Essa marca só vai aparecer, nítida e finalmente livre, em Novos poemas,
que se abre com "Ária para assovio", incorporada à Antologia mais tarde selecionada pelo poeta. A
seguir, "Amor nos três pavimentos" assinala a chegada de Vinicius ao mundo, ao chão de todo mundo.
Fundem-se aí a linguagem do amor e a linguagem da infância. Amar é ser feliz, logo, ser criança. O poeta
entre na posse de um instrumento literário capaz de lhe dar, de saída, o seu
Soneto de intimidade", a
que se seguem – todos incluídos nos Novos poemas – o "Soneto à lua",
"Soneto de agosto", o "Soneto de
Katherine Mansfield", "Soneto de contrição", o
"Soneto de devoção" e o "Soneto de inspiração".
Uma vez na posse de sua língua pessoal, Vinicius nunca mais deixará de compor os seus sonetos. Observa
Paulo Mendes Campos, com razão, que "depois do modernismo, inimigo do soneto, foi Vinicius de Moraes
que começou a criar gosto pelo soneto de forma regular". Composição poética de 14 versos, com dois
quartetos e dois tercetos, há mil maneiras de fazer um soneto, sem contar a estrambótica. O soneto está
em todas as literaturas e, desde o século XIII, resiste a todas as revoluções. Não há a rigor grande
poeta que não tenha sonetado – Dante, Petrarca, Shakespeare. Nas letras portuguesas, as duas mais altas
vozes são de exímios sonetistas – Camões e Fernando Pessoa. O soneto é a bem dizer o cartão de
identidade de um poeta. É preciso chamar-se, porém, Charles Baudelaire, ou equivalente, para manter-se
na camisa de força de um soneto e de fato empreender, com disciplina e liberdade, obra pessoal,
poeticamente válida.
No Brasil, depois da rigidez parnasiana, responsável por algumas peças marmóreas, mas perenes (Raimundo
Correa, Olavo Bilac, Alberto de Oliveira), a reação simbolista floresceu com sonetistas do porte de
Alphonsus de Guimaraens e Cruz e Sousa. O movimento modernista, para originar o provinciano e sufocante
ambiente literário nacional, precisou saudavelmente mover campanha mortal contra o soneto. Como era de
esperar os resultados foram positivos: o soneto não morreu, mas ressurgiu renovado e, nem por isso, menos
popular. Os próprios Corifeus do modernismo – Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Carlos
Drummond de Andrade – conquistaram o direito de cometer os seus sonetos sem renunciar à personalidade e
à poesia.
Forma poética popular desde a sua origem, o soneto é, para o poeta, como diz Paulo Mendes Campos,
"um desafio e uma brincadeira". Desafio sobretudo, quero crer, pelo convite a reformar uma fórmula
esgotada e sempre inesgotável; brincadeira que, como todo ato lúdico, só dá prazer dentro de um número
de regras, nessa inebriante conciliação da liberdade com a disciplina.
Vinicius é um que aceitou o desafio e saiu-se bem dele. Seu lugar, na volta ao soneto, se volta houve
entre nós, está historicamente assegurado. Seus sonetos, longe de serem acadêmicos, isto é, frios,
nati-mortos, são essencialmente modernos: respira a mesma naturalidade de suas melhores composições.
A lição camoniana, que por sua vez será petrarquiana, amplia, nos sonetos vinicianos, esse espaço
imponderável, mas nítido, da liberdade interior, sem a qual o soneto é apenas um exercício enfadonho e
bem-pensante, tendente ao sublime, mas tão só conceituoso, o que quer dizer antipoético. O cilício do
soneto, para usar a expressão feliz de Carlos Dante de Moraes, como todo recurso de ascese, há-de
conduzir a mais liberdade, o que no caso é também mais personalidade, ou seja – originalidade.
É fácil entender, por tudo isso, como faltava à bibliografia de Vinicius de Moraes este Livro de
sonetos. Aqui se juntam todos os de sua lavra que o poeta considera realizados, impregnados, pois, de
sua marca pessoal. Vários deles já correm mundo e freqüentam obrigatoriamente as coletâneas do gênero.
Conquistaram, com o favor do público, o direito à permanência. É o caso de
"Soneto de fidelidade", cujos
ecos – pelo menos os ecos – estão em oiças. Ou do
"Soneto de separação", que, como aquele, atravessa,
impávido, em decassílabos espontâneos, ainda que de sabor clássico – ou camoniano, o que dá na mesma –
os escolhos de um tema eterno. Na mesma linha, eu poderia citar o
"Soneto do amor total". Metro e rima
variam, porém, segundo as exigências do tema, ou segundo os caprichos do poeta, que é, no soneto ou
fora dele, um malabarista que não recua diante do salto mortal. Aí está, entre tantos, "A pera", que
não deixa mentir.
Desafiando e brincando, ao longe de 35 anos de fidelidade à poesia, Vinicius construiu este Livro de
sonetos, do qual se poderá dizer, sem querer bancar o profeta, que o público já consagrou, com o que
dá provas de bom-gosto e discernimento. De todas as formas poéticas, fora a quadrinha em redondilhas,
o soneto é por certo a mais popular, inclusive – ou sobretudo – porque de mais fácil memorização. A
unidade da peça e até o galope dos versos, quase sempre heróicos, assim como a distribuição geométrica
e visual – quartetos e tercetos, são bons arrimos para a memória, que aliás, em matéria de sonetos, é
ajudada pelo seu melhor servo, que é o coração. Saber de cor, no caso, é mesmo saber de coração. Também
quanto a esse aspecto da acolhida popular, é fora de dúvida que Vinicius, com os seus sonetos, várias
vezes acerta na mosca.
A Editora Sabiá, agindo sabiamente, ao publicar este Livro de sonetos, não fez mais do que obedecer a uma
misteriosa lei natural – e é que os sonetos, como certas aves, estimam andar em bando, juntos, para
juntos enfrentarem os riscos de serem abatidos, quero dizer: de serem lidos, amados e decorados.