"Aonde quer que eu vá, eu descubro que um poeta esteve lá antes de mim". S. Freud
Colômbia vs. Portugal
Abaixo, dois curiosos ensaios com títulos semelhantes criticam o fato de que os países de que falam
merecem o título que têm: o país dos poetas. Cabe ao leitor julgar se os autores têm razão e escolher
qual país foi abençoado pelo dom de escrever versos.
Colômbia, país de poetas
"O colombiano de muitas ou de poucas letras, em viagens por terras da América, recebe, ao fazer
conhecida sua nacionalidade, este gentil convite: 'Recite-nos algo'. Temos famas de poetas ao norte,
ao sul, por terras do oriente e a ocidente desta parte do mundo". A anterior é uma citação retirada
do artigo "Colômbia e os poetas", de Baldomero Sanín Cano, que dá razão à reputação poética que
pesa sobre o país. O ensaísta, para sua tranqüilidade, morreu antes que ao norte, ao sul, por terras
do oriente e a ocidente de qualquer parte do mundo começassem a nos pedir em gramas o que antes nos
solicitavam em versos.
Parece que aqui qualquer um nasce para fazer versos. Desde o ex-presidente Marco Fidel Suárez até
Aura Christina Geithner. E são muitos os desapiedados que os tornam públicos. Os políticos, além de
serem proclives à gramática, cedem facilmente à tentação lírica. Alberto Lleras Camargo dizia que "a
poesia era o primeiro escalão da vida pública e se podia chegar até a presidência por uma escada de
pares de alexandrinos".
"Certamente, a Colômbia tem tido uma fertilidade quase sobrenatural na produção de poetas, a maioria
deles medíocres. Poder-se-ia dizer que adoecemos de uma crônica tagarelice poética. Não faz muitos
anos se convocou em Bogotá um concurso de sonetos e em três meses chegaram dois mil. Isso é
sensivelmente monstruoso. Dois mil excelentes sonetos não foram produzidos no mundo nos séculos que
vão desde Petrarca até os nossos dias", alarma-se o escritor Alfredo Iriarte.
E no país de poetas não há como não ceder a palavra a um deles. Jotamario Arbeláez "sabia que a
Colômbia foi consagrada 'uma terra de leões', segundo o gracejo famoso de Ruben Dário, mas 'uma terra
de poetas' não sei quem o disse. Além do mais, se na Colômbia todo mundo é poeta, de presidentes a
presidiários, deve tratar-se de poetas muito ruins. Porque é um axioma o verso de Eduardito Zalamea:
'enquanto houver poesia ruim, haverá polícia'. E pior ainda, aqui quem não é poeta é parapoeta".
E o jovem escritor Federico Díaz-Granados também se deixa atingir com sua lança: "Se é bem sabido que
a Colômbia é um país com uma imensa tradição lírica, também é certo que se lhe quis chamar o país de
poetas porque em cada bebedeira de boteco ou praça, o ébrio da vez sai a recitar a todo pulmão Julio
Flórez ou Jorge Robledo Ortiz. Melhor somos o país dos presidentes poetas. José Manuel Marroquín
passava-se escrevendo palíndromos enquanto perdíamos o Panamá".
2000
Revista Diners - Luis Carlos Aljure e Claudia Angélica Ruiz
Portugal não é um país de poetas!
Disseram-lhes
Portugal é um país de poetas!
e acreditaram. Riparam dos blocos de notas e vai de fazer odes ao vento, sonetos à vizinha, quadras
às berças, versos a tudo o que mexa. À força de tanto se repetir o infeliz e incompreendido slogan,
o português passou a acreditar que a veia poética lhe vem de nascença juntamente com a artéria aorta
e o sistema linfático. Por isso se diz que o português é poeta por predestinação.1
Se houvesse estatísticas sobre o assunto veríamos como, à hora que escrevo, meio país — o mesmo país
que tem os índices de produtividade mais baixos da Europa — está ocupado a engendrar uma rima. Ele é
o juiz no tribunal a medir a métrica duns alexandrinos no meio dumas alegações finais; ele é o trolha
a acertar a tremedeira do martelo pneumático pelo ritmo dumas quadras lentas; ele é o funcionário
público a tentar pela centésima vez rematar um soneto no verso de requerimentos e formulários; ele é
a doméstica lavando em lágrimas uma amorosa prosa poética junto a uma adiada celha de roupa.... A
verdade é que neste país não se trabalha — verseja-se.
Uma boa parte dos males que assolam a pátria vem dessa crença disparatada na poética lusa alma. Em
rigor, aquilo que os vates nacionais tomam por um louvor patriótico não passa duma amarga constatação.
A expressão
Portugal é um país de poetas!
tem um tom desiludido, descrente, e quem a ouve devia distinguir que poetas, ali, quer dizer tolos, ou
coisa pior. A expressão
Portugal é um país de poetas!
não é a evocação da nossa arte viçosa — é o epitáfio do nosso cadáver viscoso. Ou alguém pode estar
feliz quando um povo inteiro foge do trabalho para a versalhada, recua da competência para a rima
interpolada, troca o saber pela tónica na terceira sílaba, abomina a ciência a favor do ditongo ão,
recusa a literatura porque... escreve?
Eis a triste realidade: Portugal não lê porque está demasiado ocupado — a escrever.
Dirão que exagero, que são poucos aqueles que escrevem. Poucos, senhores? Em séculos de império,
Roma e Grécia não nos deram mais do que um punhado de autores, mas hoje em Portugal não há aldeia
que não anuncie o seu poeta popular, que não erija estátuas ao seu vate, não há jornal local (e são
muitos!) que não traga poetas aos molhos, prosadores às carradas, não há vila que não publique o
seu bardo. Chegámos ao cúmulo de haver mais edições que leitores. São às toneladas as publicações,
mas, não fora a função decorativa dos livros, as editoras abririam falência.
O português não lê um livro — mas acha-se capaz de escrever cinco. E, mais grave, fá-lo. Os nossos
jovens, antes de folhear um livro, sonham ser escritores, antes de ler uma página, escrevem dez,
antes de terem vergonha do que escreveram — publicam-no.
O poeta popular leva-se a sério — não há aí mal nenhum. Mas, analfabetos com responsabilidades,
levam-no a sério — e temos obra no prelo.
O português comove-se, chora pela infância, pela família, pelos amigos, pela terra que deixou, por
tudo e por nada, e, em vez de derramar lágrimas abundantes pelos cantos da casa, verte prosa lamechas
em folhas A4 — e publica-a.
Mais do que a América de Bush, é a lírica portuguesa que compromete o futuro do planeta. Como um fogo
que arde sem se ver, o português, que devia estar a ler livros, vai publicando — e derrubando
florestas. O buraco do ozono não é nada comparado com o consumo de papel dos poetas e prosadores
portugueses. A bem das gerações vindouras, devia haver uma cimeira de Quioto para reduzir as cotas
da publicação em Portugal. (Notem como publicação rima com poluição...)
Os poetas populares já eram os maître à penser nacionais. O ódio ao intelectual, ao exercício mental,
alcandorava-os ao Olimpo das letras, a democratização das tipografias fez deles autores de culto. A
televisão, monopolizando as cabeças e o pouco que têm dentro, promoveu um novo autor: o fast food da
prosa, o autor das massas que vão à livraria como, sei lá, ao McDonald's. Por fim, os reality shows
trazem a ideia mais temerosa: todos podemos ser famosos, logo todos podemos escrever e publicar
livros...
Antes que em cada português desperte um best-seller, proponho que a partir de hoje a expressão que
tudo permite
Portugal é um país de poetas!
seja substituída pela mais criteriosa divisa
Portugal é um país de patetas!
A favor das árvores do mundo...
Notas: 1 Pela mesma crença na predestinação, na inevitabilidade do destino, é que o ensino
nacional caminha a largos passos para que o diploma de 9.º ano seja um anexo da certidão de baptismo.
O que não se poupava com isso...