o seu sítio de poesia

BUSCA SONETO

RIMADOR

SONETOS FAMOSOS
SONETOS MEUS
SONETOS SEUS
COMUNIDADE
HISTÓRIA
RIMADOR
PARA OUVIR
SONETO-ARTE
COMO ESCREVER
LIVRO DE VISITAS
SONETOS NO MUNDO
SOBRE ESTE SÍTIO

"Aonde quer que eu vá, eu descubro que um poeta esteve lá antes de mim".
S. Freud
SONETOS SOBRE SONETOS

Mais uma vez, apresenta-se a arte pela arte nestes exemplos de sonetos que utilizam como tema o próprio soneto. De Cruz e Souza a Glauco Mattoso, muitos autores - eu, inclusive - renderam-se a louvar os catorze versos em catorze versos. É interessante observar que alguns destes poemas traduzem a dificuldade que vai tomando conta do poeta enquanto ele precisa terminar o seu soneto, algo que só pode ser descrito por quem já se encontra viciado pela poesia... Aprecie e divirta-se com o poder das palavras...

Fonte (alguns sonetos): Clube da poesia


SONETOS

Do som, da luz entre os joviais duetos,
Como uma chusma alada de gaivotas,
Vindos das largas amplidões remotas,
Batem as asas todos os sonetos.

Vão -- por estradas, por difíceis rotas,
Quatorze versos -- entre dois quartetos
E duas belas e luzidas frotas
Rijas, seguras, de mais dois tercetos.

Com a brunida lâmina da lima,
Vão céus radiosos, horizontes acima,
Pelas paragens límpidas, gentis,

Atravessando o campo das quimeras,
Aberto ao sol das flóreas primaveras,
Todo estrelado de áureos colibris.

Cruz e Souza
De La niña de plata.

Un soneto me manda hacer Violante,
que en mi vida me he visto en tal aprieto;
catorce versos dicen que es soneto:
burla burlando van los tres delante.

Yo pensé que no hallara consonante
y estoy a la mitad de otro cuarteto;
mas si me veo en el primer terceto
no hay cosa en los cuartetos que me espante.

Por el primer terceto voy entrando
y parece que entré con pie derecho,
pues fin con este verso le voy dando.

Ya estoy en el segundo, y aun sospecho
que voy los trece versos acabando;
contad si son catorce, y está hecho.

Lope de Vega
Lembras, no aspecto, as frágeis miniaturas,
escrínio, camafeu, flor em redoma,
missal a refulgir de iluminuras,
frases de ouro a evolar fugace aroma.

Émulo de imperiais cinzeladuras,
que o poeta ductiliza, esmera e croma,
lavor que impõe desvelos e torturas,
mas donde, em versos, a Beleza assoma.

Quem te arquiteta em rimas de alabastro,
enclausurando em ti a imensidade,
da larva subterrânea à luz de um astro,

transmuda-te de fino estojo em arca,
jóia antiga de eterna mocidade,
sacrário excelso da alma de Petrarca.

Correia Pinto
Dourado bergantim, num mar distante,
num mar que banha regiões graciosas,
povoadas de imagens fantasiosas,
como um tropel de fadas, doidejante...

À proa canta a Musa - o tripulante
que à flor de um lago, todo leite e rosas,
ou no dorso das vagas espumosas,
conduz ligeiro a quilha de diamante.

Ao país da quimera vai correndo
- fatal país donde jamais volvemos,
ao mesmo tempo tentador e horrendo.

E audaz buscando esses confins extremos,
o leve bergantim vão-no movendo
as pás argênteas de quatorze remos.

Alfredo Cunha
A sua excelência o meu amigo Soneto

Meu amigo Soneto, eu te agradeço
o carinhoso, consolante abrigo
que dás à dor imensa que padeço
e deste aos sonhos que eu cantei contigo.

Mais te amo quanto mais te ouço e conheço,
jovem cantor que vens do tempo antigo,
e tenho a tua estima, que é sem preço,
meu companheiro, meu melhor amigo.

E, graças ao prestígio dessa estima,
tu me fizeste um grão-senhor da Rima,
e me acolhes agora como dantes,

e abres-me ainda - e desde a mocidade -,
teus quatorze caminhos rutilantes,
que desembocam na imortalidade.

Filinto de Almeida
Para Fazer um Soneto

Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
e espere um instante ocasional
neste curto intervalo Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial

Ai, adote uma atitude avara
se você preferir a cor local
não use mais que o sol da sua cara
e um pedaço de fundo de quintal

Se não procure o cinza e esta vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse
antes, deixe levá-lo a correnteza

Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza
ponha tudo de lado e então comece.

Carlos Pena Filho
Soneto ao soneto

Soneto: De onde veio? Quem criou?
Que motivo o levou a ser escrito?
Entre os catorze versos, que foi dito?
Qual assunto o poeta nos contou?

Tanto fascínio, quando começou?
Prá que se criou algo tão bonito?
Como o mundo o manteve, como um rito?
E por que, desse nome, alguém chamou?

Sua estrutura, muitos elevaram.
O maior deles, creio, foi Camões,
Pois, em meio à prisão, onde o deixaram

Vinte anos, metido nos grilhões,
Fez sonetos que o tempo atravessaram,
Que ensinaram o amor às gerações.

Bernardo Trancoso
Faço um soneto sem contar nos dedos
as sílabas de sua construção.
Quatorze versos. Líricos enredos.
Quatorze espinhos no meu coração.

Ponho nele o cetim dos arvoredos
e a cor das lindas tardes de verão.
Faço dele a caixinha de segredos,
todos trancados pela minha mão.

Quatorze tristes catedrais vazias,
cujo silêncio esmaga as harmonias
dos meus desejos vãos de Perfeição.

Faço um soneto. Ó, essas mãos esguias
roubando estrelas pelas noites frias,
nas minhas noites de meditação!

Áureo Contreiras
Rendilho no ouro o verso, em leve lhama;
logo, ofuscando a pávida pupila,
a rima esplende e corre na áurea trama,
como uma gota de ouro que cintila.

Crebra, vibrando em sons de luz, tintila
a frase crespa que o lavor recama
e a estrofe acesa de iriante chama,
em áscuas de ouro trêmula fuzila.

E atento o olhar, nem conto o tempo breve.
Alheio a tudo, a mão serena e leve,
sutil... sutil..., correndo no tesouro...

Enredo, enleio os fios de ouro, fino,
e ao jeito de um ourives florentino,
bordo o soneto em filigrana de ouro.

Vitor Silva
Amo o soneto, o engaste florentino
de tanta jóia de lirismo alado,
de tanto pensamento cristalino,
de tanto amor, de tanto ideal sagrado.

Nele, Petrarca, o sonhador divino,
deixou gemer o coração rasgado;
Tasso cantou seu mísero destino;
Dante, o amor imortal do seu passado.

Teve, nele, o cantor do "Paraíso",
descanso às suas últimas visões;
deu-lhe Bocage, eterno, o choro e o riso;

Antero, um mundo de interrogações;
e tantos outros. . . que nem é preciso lembrar,
ainda, quanto o amou Camões.

José Fernandes Costa
Rosa de ouro e cristal que, na alta rama
do pátrio idioma eternamente presa,
enfeixas no pudor da tua trama
o véu de castidade da beleza!

Prefiro, para amar-te, a mesma chama
da fé, porque és a catedral acesa
onde rezo, no culto que me inflama,
minha oração à língua portuguesa!

Soneto, em vão os deserdados da arte
clamarão contra ti, que os não socorres.
Mas eu me ajoelho para celebrar-te,

quando, afrontando todos os destinos,
ergues, no templo de quatorze torres,
a perpétua aleluia dos teus sinos!

Nilo Aparecida Pinto
O Soneto

Nas formas voluptuosas o soneto
Tem fascinante, cálida fragrância
E as leves, langues curvas de elegância
De extravagante e mórbido esqueleto.

A graça nobre e grave do quarteto
Recebe a original intolerância,
Toda a sutil, secreta extravagância
Que transborda terceto por terceto.

E como um singular polichinelo
Ondula, ondeia, curioso e belo,
O Soneto , nas formas caprichosas.

As rimas dão-lhe a púrpura vetusta
E nas mais rara procissão augusta
Surge o Sonho das almas dolorosas...

Cruz e Souza
Quatorze versos; rimas e medida
para que a forma seja sem defeito.
E na primeira quadra - ainda escondida,
a imagem sugestiva ou algum conceito.

Para à segunda quadra dar efeito,
o poeta, muita vez, tem dura lida;
pois, num ritmo melódico e escorreito,
a idéia deve ser compreendida.

O primeiro terceto vai subindo
a escala da emoção e é sempre lindo,
dela trazendo a máxima expressão.

Depois, a chave-de-ouro, enclausurando
a jóia num escrínio, e revelando
o poder imortal da Inspiração!

Yde Schloenbach Blumenschein
SONETO 233 SONETADO

Já li Lope de Vega e li Gregório,
pois ambos sonetaram do soneto,
seara na qual minha foice meto,
tentando fazer algo meritório.

Não quero usar o mesmo palavrório,
mas pilho-me, no meio do quarteto,
montando a anatomia do esqueleto.
No oitavo verso, o alívio é provisório.

Contagem regressiva: faltam cinco.
Mais quatro, e fico livre do problema.
Agora faltam três... Deus, dai-me afinco!

Com dois acabo a porra do poema.
Caralho! Só mais um! Até já brinco!
Gozei! Matei a pau! Que puta tema!

Glauco Mattoso
Como um bloco de pedra, inanimado e forte,
tens a idéia. Pois bem: trabalha na obra-prima!
E, antes de começar, num sublime transporte,
aguarda a inspiração, que baixa lá de cima...

Depois te quero ver, mais duro que Mavorte,
batendo com o martelo e rilhando com a lima!
E, talhado de rijo, em soberbo recorte,
gire o verso, a cantar, no eixo de ouro da rima...

E que um dia nos venha, extraordinário amigo,
um soneto que vibre, entre clarões dispersos,
levantando o rumor de um campanário antigo...

E, no sumo apogeu das formas desejadas,
grite pelo metal dos seus quatorze versos,
relampagueando ao sol, como quatorze espadas!

Batista Cepelos
Os poetas repudiam-te, soneto!
Dão outra forma às suas produções.
Chamam-te arcaico, dizem-te obsoleto
como Horácio, a Arte Poética e os Pisões.

Mas tu não morrerás, és o esqueleto
da idéia, que resiste às construções.
O pensamento vive em ti, completo,
de Ronsard, de Petrarca, de Camões!

Disse Boileau que vales todo um poema!
Dentro de ti, como num cofre, coube
de chave de ouro, a inspiração de Arvers,

o poeta que em quatorze versos soube,
na arte da tua síntese suprema,
eternizar o amor a uma mulher!

Atílio Milano

ENVIAR SEU SONETO

INDICAR O SÍTIO

Última atualização: 22/12/2007 - © 2002-2008 Bernardo Trancoso. Todos os direitos reservados.