"Tristeza não tem fim. Felicidade, sim". Ah, Vinicius, poeta amado e idolatrado entre estas páginas...
Os seus versos têm o poder de aproximar os sentimentos das palavras de uma forma simples e ao mesmo
tempo direta. Não é fácil conseguir isso com rimas, já vou avisando. Mas, se você resolver escrever um
soneto, comece exercitando a simplicidade ao invés de procurar palavras difíceis para expressar o que
já é complicado de descrever. Para chegar a um Bilac, ou Machado de Assis, explorando a Língua
Portuguesa em sua intimidade e arrancando dela verbetes pouco comuns que definem com precisão o que
eles querem dizer, aí é preciso muita leitura e prática no manejo das idéias. Eu, por exemplo, ainda
não observo esta qualidade nos meus versos. Contudo, sigo lendo bastante e praticando sonetos. Os mais
recentes, felizmente, mostram que alguma coisa está melhorando... Como em qualquer arte, o sucesso vem
em parte da vocação e em parte da experiência.
Sendo assim, se há bem pouca prática com as palavras escritas, não recomendo começar pelo soneto. Isso,
a não ser que você queira usar versos brancos – sem rima – em sua obra, adotando uma postura modernista
que mais parecerá conveniente à situação do que uma obra moderna de fato. Pois o soneto enfrenta o
poeta, dizendo: "desafio-te a resumir suas idéias aqui, em catorze versos, rimando-os alternadamente e
de preferência sem repetir as palavras, respeitando sua métrica". O único consolo é que, depois de
escrito o soneto, o poeta pode responder: "pronto, venci as suas regras, as portas agora estão abertas
para o próximo poema". E quem consegue fazer um soneto dificilmente irá parar no primeiro, porque esta
obra tem uma espécie de poder atrativo sobre seu autor. Um soneto é prático: tem um formato regular,
cabe em um espaço tão pequeno quanto um guardanapo de bar (já me peguei tendo inspirações incríveis no
meio de uma bebedeira), é fácil de ser decorado... Um soneto é direto: tem começo, meio e fim, ajuda a
sintetizar idéias... Em suma, um soneto tinha tudo para ser simples, mas não é. Eu, particularmente,
considero-o o estado da arte em matéria de poesia. Sigo cultuando-o, assim como fizeram Camões,
Shakespeare e tantos outros.
Continuando. Digamos que escrever não seja um problema para você e que você tenha um controle das
palavras a ponto de não passar apertos na hora de escrever um e-mail para o seu chefe. E que você saiba
de cor algumas músicas do Chico Buarque e – mais importante – entenda o significado delas. Pronto, o
caminho está traçado para a poesia. É "simples" assim. Então, lápis e caderno à mão. Vamos escrever,
juntos, o seu primeiro soneto:
O tema.
Para não fugir à regra nem à proposta deste artigo, o tema do soneto deve ser o mais claro e abrangente
possível. Amor, por exemplo. O título fica a seu critério e não precisa ter nada a ver com o que
aparecerá depois dele. Mas é bom que tenha, ou não vai ficar claro para quem está lendo o que você quer
dizer. Lembre-se: pratique simplicidade.
O posicionamento das rimas.
Podemos pensar em algo do tipo Camões, de estrutura ABBA ABBA CDE CDE, que tal? Faça assim: separe uma
página inteira do caderno para os versos; vá escrevendo ao lado de cada uma delas uma letra da seqüência
anterior; tente deixar uma linha entre os quartetos e tercetos para que o soneto, ao ficar pronto, tenha
a aparência de uma obra clássica.
Nota: se você tem dúvidas sobre o que posicionamento das rimas significa, consulte antes o link Como
Escrever do menu à esquerda.
Sonoridade
Procure as palavras que se relacionem ao tema escolhido e escreva-as no rodapé da mesma folha onde serão
semeados os versos. Busque aquelas que rimam entre si e separe-as num canto. Elimine as de rima incomum
como, por exemplo, beijo. Beijo rima com queijo, só. Se você quer rimá-la com desejo, tudo bem, mas aí
a rima não será tão sonora. Use bastante a borracha, se necessário, para organizar as palavras.
Uma vez definidas as rimas principais (A e B da seqüência do item anterior), busque o maior número de
palavras possíveis para cada uma delas. Este sítio possui o Rimador, um recurso que pode ajudar você
nesta tarefa. Lembre-se: quanto mais palavras você tiver para colocar nas rimas, mais facilmente você
conseguirá expor a idéia do seu soneto sem perder a métrica. E, para este primeiro soneto, as palavras
podem ajudar você a estruturar seus pensamentos, fazendo-os caber dentro dos catorze versos.
O primeiro verso.
Geralmente, este é um dos elementos essenciais do soneto, por ser um dos passos mais difíceis em direção
à obra acabada. O primeiro verso leva-nos diretamente aos sentimentos do poeta, como uma chave que nos
abre as portas de sua alma. É por isso que ele é chamado de chave de prata, em comparação com a chave
de ouro, que é o último verso do soneto e sobre o qual falaremos adiante. Eu já parei um sem-número de
sonetos no primeiro verso porque não encontrava palavras para dar continuidade ao que ele, o verso,
queria dizer. Um conselho do amigo sonetista: não perca tempo à procura do verso perfeito. Escreva a
primeira coisa que sair da sua cabeça, que tenha a ver com o tema, que obedeça à métrica, que respeite
o posicionamento das rimas... Se já é difícil seguir tantas regras, mais penoso será se você tentar dar
uma de Vinicius logo no seu primeiro soneto. Lembre-se do que eu disse no parágrafo inicial deste
artigo sobre a dificuldade de ser direto e simples com as rimas.
A chave de ouro
Depois do primeiro verso, vem o primeiro quarteto, o segundo... O poeta – você – volta e arruma algumas
palavras que ficaram desconexas e parte para os tercetos. Os primeiros versos são mais fáceis e você
segue escrevendo até que, de repente, se depara com o último verso... A chave de ouro.
Sobraram apenas poucas sílabas poéticas, e você precisa concluir sua idéia que começou lá atrás. Neste
instante, um pouco de capricho não custa nada... A chave de ouro recebe este nome porque simboliza muito
mais do que um simples último verso. Ao concluí-lo, é o poeta quem está entregando algo para outras
pessoas, como se ele abrisse as portas do seu ateliê para o mundo apreciar. A sensação da obra completa
vale o esforço, eu garanto. Valerá ainda mais se você puder presentear quem ama com o seu soneto sobre o
amor (todavia, se não tiver a quem presenteá-lo, dê-o a você mesmo, merecedor após tanto esforço).
Mostre-o aos seus amigos, ouça a opinião deles sem medo, para poder melhorar suas próximas obras, mande-o
para cá. Só peço para que você não o deixe escondido na gaveta, porque pode ser que ele se perca e,
assim, perdermos todos este momento de poesia que você proporcionou ao mundo... Afinal, o poeta, antes
de tudo, é um doador universal do amor.
Viu? Foi simples. Agora é com você, enquanto eu aguardo seu soneto para publicá-lo aqui. Vemo-nos na
próxima semana.