o seu sítio de poesia

BUSCA SONETO

RIMADOR

SONETOS FAMOSOS
SONETOS MEUS
SONETOS SEUS
COMUNIDADE
HISTÓRIA
RIMADOR
PARA OUVIR
SONETO-ARTE
COMO ESCREVER
LIVRO DE VISITAS
SONETOS NO MUNDO
SOBRE ESTE SÍTIO

"Aonde quer que eu vá, eu descubro que um poeta esteve lá antes de mim".
S. Freud
VERSO EM PROSA [ÍNDICE]

A SIMPLICIDADE DO PRIMEIRO SONETO

"Tristeza não tem fim. Felicidade, sim". Ah, Vinicius, poeta amado e idolatrado entre estas páginas... Os seus versos têm o poder de aproximar os sentimentos das palavras de uma forma simples e ao mesmo tempo direta. Não é fácil conseguir isso com rimas, já vou avisando. Mas, se você resolver escrever um soneto, comece exercitando a simplicidade ao invés de procurar palavras difíceis para expressar o que já é complicado de descrever. Para chegar a um Bilac, ou Machado de Assis, explorando a Língua Portuguesa em sua intimidade e arrancando dela verbetes pouco comuns que definem com precisão o que eles querem dizer, aí é preciso muita leitura e prática no manejo das idéias. Eu, por exemplo, ainda não observo esta qualidade nos meus versos. Contudo, sigo lendo bastante e praticando sonetos. Os mais recentes, felizmente, mostram que alguma coisa está melhorando... Como em qualquer arte, o sucesso vem em parte da vocação e em parte da experiência.

Sendo assim, se há bem pouca prática com as palavras escritas, não recomendo começar pelo soneto. Isso, a não ser que você queira usar versos brancos – sem rima – em sua obra, adotando uma postura modernista que mais parecerá conveniente à situação do que uma obra moderna de fato. Pois o soneto enfrenta o poeta, dizendo: "desafio-te a resumir suas idéias aqui, em catorze versos, rimando-os alternadamente e de preferência sem repetir as palavras, respeitando sua métrica". O único consolo é que, depois de escrito o soneto, o poeta pode responder: "pronto, venci as suas regras, as portas agora estão abertas para o próximo poema". E quem consegue fazer um soneto dificilmente irá parar no primeiro, porque esta obra tem uma espécie de poder atrativo sobre seu autor. Um soneto é prático: tem um formato regular, cabe em um espaço tão pequeno quanto um guardanapo de bar (já me peguei tendo inspirações incríveis no meio de uma bebedeira), é fácil de ser decorado... Um soneto é direto: tem começo, meio e fim, ajuda a sintetizar idéias... Em suma, um soneto tinha tudo para ser simples, mas não é. Eu, particularmente, considero-o o estado da arte em matéria de poesia. Sigo cultuando-o, assim como fizeram Camões, Shakespeare e tantos outros.

Continuando. Digamos que escrever não seja um problema para você e que você tenha um controle das palavras a ponto de não passar apertos na hora de escrever um e-mail para o seu chefe. E que você saiba de cor algumas músicas do Chico Buarque e – mais importante – entenda o significado delas. Pronto, o caminho está traçado para a poesia. É "simples" assim. Então, lápis e caderno à mão. Vamos escrever, juntos, o seu primeiro soneto:

O tema.

Para não fugir à regra nem à proposta deste artigo, o tema do soneto deve ser o mais claro e abrangente possível. Amor, por exemplo. O título fica a seu critério e não precisa ter nada a ver com o que aparecerá depois dele. Mas é bom que tenha, ou não vai ficar claro para quem está lendo o que você quer dizer. Lembre-se: pratique simplicidade.

O posicionamento das rimas.

Podemos pensar em algo do tipo Camões, de estrutura ABBA ABBA CDE CDE, que tal? Faça assim: separe uma página inteira do caderno para os versos; vá escrevendo ao lado de cada uma delas uma letra da seqüência anterior; tente deixar uma linha entre os quartetos e tercetos para que o soneto, ao ficar pronto, tenha a aparência de uma obra clássica.

Nota: se você tem dúvidas sobre o que posicionamento das rimas significa, consulte antes o link Como Escrever do menu à esquerda.

Sonoridade

Procure as palavras que se relacionem ao tema escolhido e escreva-as no rodapé da mesma folha onde serão semeados os versos. Busque aquelas que rimam entre si e separe-as num canto. Elimine as de rima incomum como, por exemplo, beijo. Beijo rima com queijo, só. Se você quer rimá-la com desejo, tudo bem, mas aí a rima não será tão sonora. Use bastante a borracha, se necessário, para organizar as palavras.

Uma vez definidas as rimas principais (A e B da seqüência do item anterior), busque o maior número de palavras possíveis para cada uma delas. Este sítio possui o Rimador, um recurso que pode ajudar você nesta tarefa. Lembre-se: quanto mais palavras você tiver para colocar nas rimas, mais facilmente você conseguirá expor a idéia do seu soneto sem perder a métrica. E, para este primeiro soneto, as palavras podem ajudar você a estruturar seus pensamentos, fazendo-os caber dentro dos catorze versos.

O primeiro verso.

Geralmente, este é um dos elementos essenciais do soneto, por ser um dos passos mais difíceis em direção à obra acabada. O primeiro verso leva-nos diretamente aos sentimentos do poeta, como uma chave que nos abre as portas de sua alma. É por isso que ele é chamado de chave de prata, em comparação com a chave de ouro, que é o último verso do soneto e sobre o qual falaremos adiante. Eu já parei um sem-número de sonetos no primeiro verso porque não encontrava palavras para dar continuidade ao que ele, o verso, queria dizer. Um conselho do amigo sonetista: não perca tempo à procura do verso perfeito. Escreva a primeira coisa que sair da sua cabeça, que tenha a ver com o tema, que obedeça à métrica, que respeite o posicionamento das rimas... Se já é difícil seguir tantas regras, mais penoso será se você tentar dar uma de Vinicius logo no seu primeiro soneto. Lembre-se do que eu disse no parágrafo inicial deste artigo sobre a dificuldade de ser direto e simples com as rimas.

A chave de ouro

Depois do primeiro verso, vem o primeiro quarteto, o segundo... O poeta – você – volta e arruma algumas palavras que ficaram desconexas e parte para os tercetos. Os primeiros versos são mais fáceis e você segue escrevendo até que, de repente, se depara com o último verso... A chave de ouro.

Sobraram apenas poucas sílabas poéticas, e você precisa concluir sua idéia que começou lá atrás. Neste instante, um pouco de capricho não custa nada... A chave de ouro recebe este nome porque simboliza muito mais do que um simples último verso. Ao concluí-lo, é o poeta quem está entregando algo para outras pessoas, como se ele abrisse as portas do seu ateliê para o mundo apreciar. A sensação da obra completa vale o esforço, eu garanto. Valerá ainda mais se você puder presentear quem ama com o seu soneto sobre o amor (todavia, se não tiver a quem presenteá-lo, dê-o a você mesmo, merecedor após tanto esforço). Mostre-o aos seus amigos, ouça a opinião deles sem medo, para poder melhorar suas próximas obras, mande-o para cá. Só peço para que você não o deixe escondido na gaveta, porque pode ser que ele se perca e, assim, perdermos todos este momento de poesia que você proporcionou ao mundo... Afinal, o poeta, antes de tudo, é um doador universal do amor.

Viu? Foi simples. Agora é com você, enquanto eu aguardo seu soneto para publicá-lo aqui. Vemo-nos na próxima semana.

São Paulo, 29 de março de 2005.
Bernardo Trancoso

ENVIAR SEU SONETO

INDICAR O SÍTIO

Última atualização: 22/12/2007 - © 2002-2008 Bernardo Trancoso. Todos os direitos reservados.